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    Manifesto 2013-2015

    A mobilidade eléctrica, uma oportunidade para Portugal

     

    1. A mobilidade eléctrica hoje

    A Associação Portuguesa do Veículo Eléctrico (APVE) foi criada em 1999 para promover a mobilidade eléctrica em Portugal. Desde então, a difusão da mobilidade eléctrica conheceu um significativo desenvolvimento em todo o mundo e também em Portugal:

    - Na última década, foram vendidos milhões de veículos eléctricos e híbridos.

    - Existem actualmente projectos de demonstração de veículos eléctricos com infra-estrutura de carregamento por todas as grandes e médias cidades na Europa.

    - Várias dezenas de modelos de veículos eléctricos encontram-se actualmente no mercado, com origem nas maiores marcas e em empresas start-up.

    - A todos os níveis, as políticas públicas dedicam crescente atenção à mobilidade eléctrica: a nível local, um grande número de cidades (incluindo agências de energia, operadores de transportes, etc.) tem mostrado grande interesse e empenho na implementação da mobilidade eléctrica, como facilitadores e integradores; vários governos, incluindo Portugal, definiram planos de promoção da mobilidade eléctrica; a nível internacional, refira-se o Implementation Agreement da Agência Internacional de Energia, subscrito por vários Estados, incluindo Portugal.

    - O tema é hoje alvo de investigação e desenvolvimento por parte de universidades e outras instituições, em qualidade e quantidade ao nível de áreas como redes inteligentes, energia solar ou eficiência energética, existindo um número crescente de projectos a nível nacional, europeu e internacional.

    - Existem também já em implementação projectos comerciais, e o interesse das grandes empresas de energia, telecomunicações, equipamento e outras é evidente. Várias oportunidades de serviço à operação começam também a emergir desde serviços de manutenção a inovadores modelos de negócio.

    - A agenda de conferências e congressos sobre o tema é dinâmica, e as notícias sobre veículos eléctricos na imprensa especializada e generalista sucedem-se a ritmo intenso.

    - Existem hoje mais de 1300 utilizadores de veículos eléctricos em Portugal (cerca de 300 em veículos de 4 rodas e aproximadamente 1000 em 2 rodas), bastante interessados no tema, proactivos e intervenientes na sensibilização da opinião pública. Graças a uma iniciativa da APVE Portugal possui hoje uma frota de miniautocarros eléctricos integrados em linhas regulares de transporte público com 21 miniautocarros distribuídos por 8 cidades.

     

    Pode-se, por isso, considerar que a mobilidade eléctrica começa a integrar as políticas de acessibilidade e mobilidade e se tornou numa importante indústria emergente, crescentemente abrangente e influente, embora relativamente imatura, onde empresas e instituições procuram ainda identificar o seu lugar e a sua estratégia.

    A APVE pretende continuar a contribuir para que Portugal possa beneficiar da evolução do sector, nomeadamente facilitando a formação de consensos sobre a estratégia e sobre o enquadramento a criar em Portugal, através da acção concertada dos principais actores industriais, académicos e institucionais, mantendo o alinhamento da sua actuação com as grandes tendências internacionais.

     

    2. O contexto português

    O sucesso do veículo eléctrico depende de vários factores, que podemos agrupar em duas categorias: factores internos à indústria da mobilidade eléctrica e factores externos. Entre os primeiros destacam-se o custo e o desempenho dos próprios veículos, a extensão e acessibilidade das redes de carregamento e a existência de modelos adequados de negócio. Entre os segundos sobressaem o conteúdo de CO2 da electricidade utilizada e a existência de redes inteligentes de distribuição de energia eléctrica.

    Portugal não possui uma indústria nacional de veículos eléctricos de massa e dificilmente poderá aspirar a tornar-se um actor relevante no mercado mundial dos automóveis eléctricos, face ao poder de mercado dos construtores automóveis já estabelecidos. Pode, no entanto, como acontece na indústria tradicional automóvel, ser um fornecedor importante de componentes e pode também desenvolver nichos de mercado, tanto no segmento 4 rodas como no segmento 2 rodas, ou em novos modos de mobildade (bike, car sharing/pooling, micro logística urbana, etc.).

    Em termos relativos, isto é, face à dimensão do País, Portugal possui actualmente uma das redes de carregamento de veículos eléctricos mais extensas do mundo. No entanto, a expansão e manutenção da infra-estrutura de carregamento terá que ter em conta, prioritariamente, o desenvolvimento do mercado e as estratégias comerciais dos construtores de veículos, assim como o desenvolvimento de modelos de negócio capazes de atrair o interesse dos potenciais utilizadores. 

    Em Portugal, a mobilidade eléctrica teve investimentos públicos significativos que visaram permitir o arranque da infra-estrutura, mas para o paradigma ser sustentável as empresas envolvidas têm de ter modelos de negócio viáveis. Importa por isso iniciar uma nova fase, crítica para o sucesso dos veículos eléctricos, valorizando o papel da iniciativa privada nesta área. Existe uma janela de oportunidade para a indústria portuguesa poder criar efectivamente produtos e serviços que tenham potencial de exportação e utilização no mercado nacional, e assim criar um polo de competitividade na área.

    No que diz respeito aos factores externos, ou de contexto, Portugal usufrui de condições privilegiadas:

    - Por um lado, o teor de CO2 da electricidade produzida em Portugal situa-se abaixo da média dos valores da União Europeia e tem vindo a decair rapidamente, graças à crescente penetração das energias renováveis: no final do século passado (1995-1999) registavam-se valores médios na ordem dos 530 gCO2/kWh, tendo esse valor caído já para cerca de metade, com tendência decrescente. Aliado a este facto salienta-se o recente desafio lançado pela União Europeia para que os construtores automóveis reduzam em 2020 os níveis de emissões para 95 gCO2/km, abrindo-se assim uma janela de oportunidade para o desenvolvimento do veículo eléctrico integrado no contexto electroprodutor nacional.

    Quanto mais baixo for o teor de CO2 da electricidade utilizada pelos veículos eléctricos, maior será o seu contributo para a descarbonização do sector dos transportes e, consequentemente, para o cumprimento das metas nacionais de redução das emissões de gases de efeito de estufa. Sem electricidade “verde” o veículo eléctrico não teria qualquer justificação ecológica.

    - Por outro lado, Portugal é um país pioneiro nas redes inteligentes, tanto ao nível de projectos-piloto como da investigação aplicada e da indústria de contagem inteligente.

    O carregamento dos veículos eléctricos tem de ser progressivamente enquadrado por redes inteligentes de distribuição de energia eléctrica; de outra forma, a operação do sistema eléctrico tornar-se-ia extremamente ineficiente e pouco fiável, pondo em risco a segurança de abastecimento e a qualidade de serviço, e o carregamento seria demasiado dispendioso para o utilizador.

    As redes inteligentes de distribuição de electricidade são mais do que uma condição necessária da mobilidade eléctrica: se devidamente concebidas e implementadas, elas permitem ajustar sistematicamente a utilização (carregamento e descarga) das baterias com a produção de electricidade a partir de fontes renováveis intermitentes, optimizando o funcionamento do sistema eléctrico na dupla perspectiva económica e ambiental. Graças às redes inteligentes, o valor do veículo eléctrico é substancialmente ampliado, para o utilizador/consumidor e para a sociedade em geral.

    Para que Portugal possa maximizar os benefícios decorrentes da mobilidade eléctrica, é fundamental que as políticas públicas de energia, clima e mobilidade sejam adequadamente coordenadas entre elas e devidamente articuladas entre o nível nacional e o nível local (municipal ou intermunicipal), tendo em conta o alinhamento europeu e internacional.

    Ao nível local, o veículo eléctrico possui um elevado potencial de utilização, enquanto factor de eficiência energética e ambiental, o que lhe confere um importante papel no paradigma da mobilidade sustentável. Estima-se que até 2020 cerca de 85% da população europeia viverá em cidades, pelo que quaisquer políticas de sustentabilidade assentes na eficiência na utilização de recursos energéticos passam, forçosamente, por uma eficaz actuação a nível local.

    A concretização das estratégias locais de desenvolvimento sustentável, actualmente um desígnio dos municípios mais avançados que se pretendem assumir como “smart cities”, passa pela aposta inequívoca na eficiência da utilização dos diferentes recursos nos seus territórios, como forma de reduzir o seu impacto no Planeta. A eficiência energética assume aqui um importante papel, consubstanciado através dos compromissos locais para a redução de consumos de energia e de emissões de gases com efeito de estufa, como o Pacto dos Autarcas, e beneficiará da aposta na mobilidade eléctrica.

    O sistema de mobilidade urbana é complexo e envolve um cada vez maior número de intervenientes, cujos interesses têm que ser acautelados e satisfeitos. A prestação de serviços de transporte colectivo, a logística urbana organizada em sistemas avançados, os serviços urbanos ou a mobilidade individual são distintas dimensões do sistema de mobilidade urbana, nos quais a tracção eléctrica possui um importante potencial de utilização. A mobilidade eléctrica deve, assim, ser devidamente vertida e integrada nas estratégias locais de mobilidade. A economia de recurso que proporciona, associada à inovação e à aposta em capital humano qualificado, aspectos fundamentais para uma “smart city”, será um importante passo para que a mobilidade eléctrica se possa definitivamente assumir como um pilar fundamental da eco-eficiência urbana.

     

     

    3. O papel da APVE

    A APVE tem por objecto estatutário “a promoção de uma ampla utilização de veículos com propulsão eléctrica, integrada numa política de transportes e mobilidade sustentável”.

    Na primeira fase da sua actividade, a APVE assumiu um papel essencialmente difusor de informação sobre mobilidade eléctrica: organizou conferências, criou uma página na internet, publicou relatórios e boletins de informação, patrocinou projectos-piloto e sessões de demonstração e experimentação de veículos eléctricos (em particular autocarros em ambiente urbano), traduziu normas internacionais, assumindo as funções de Organismo de Normalização Sectorial (ONS), desenvolveu relações e parcerias internacionais, etc..

    Esta actividade informativa deve naturalmente ter continuidade e, na medida do possível, ser reforçada. Contudo, a APVE deve também assumir um papel mais activo de associação do sector, representando toda a indústria, universidades, politécnicos e organismos de investigação, organismos do Estado e municípios com interesses, negócio e conhecimento na área de mobilidade eléctrica, bem como a voz do utilizador, identificando as suas necessidades e os seus desejos, em articulação com outras associações, nomeadamente nas áreas dos transportes, energia e ambiente.

    À APVE cabe mobilizar as competências e os recursos disponíveis no sentido de definir e apoiar as estratégias mais adequadas à transição da mobilidade eléctrica de uma fase de investigação e demonstração para uma fase de concretização industrial e comercial em larga escala, criando as condições necessárias para a formação de um cluster de desenvolvimento de tecnologia e know-how para aplicação em Portugal e para exportação.

    Neste sentido, a APVE deve reunir o conhecimento dos seus membros e alinhar e coordenar os seus interesses, assegurando eficazmente as seguintes funções:

     

    1.      Organizar o debate e identificar linhas prioritárias de desenvolvimento estratégico da indústria e da universidade na área da mobilidade eléctrica.

    2.      Recolher e sistematizar informação sobre o mercado nacional, nomeadamente estatísticas de veículos eléctricos vendidos, facturação do mercado, criação de valor, emprego criado, bem como constrangimentos à maior evolução do sector.

    3.      Ser um dos principais parceiros do Governo Português na discussão e elaboração de legislação e regulamentação para o sector da mobilidade eléctrica, em estreita articulação com outras políticas sectoriais, nomeadamente energia, clima e ordenamento do território.

    4.      Colaborar com as Autarquias na definição de políticas locais de mobilidade eléctrica.

    5.      Assegurar a representação de todo o sector português nos grupos de normalização internacional CEN /ISO e CENELEC/IEC, através das Comissões Técnicas, para que os interesses do nosso País sejam ouvidos e o sector possa ter conhecimento, o mais actualizado possível, das iniciativas internacionais.

    6.      Disseminar entre os seus membros programas de financiamento da União Europeia para a área da mobilidade eléctrica e facilitar, quando apropriado, a criação de consórcios com participação de membros da APVE.

    7.      Promover a disseminação entre todos os seus membros, do conhecimento adquirido de forma individual por alguns dos seus membros, noutros grupos de trabalho e projectos europeus e internacionais, incluindo os resultados dos projectos de I&D desenvolvidos em Portugal nos domínios da mobilidade eléctrica e das redes inteligentes de electricidade.

    8.      Promover a disseminação da mobilidade eléctrica em Portugal e a divulgação do sector industrial no estrangeiro, em colaboração com os organismos relevantes do Estado.

     

     

    4. Funcionamento da APVE

    Para cumprimento da sua missão em pleno, a APVE tem de ser um fórum de afirmação clara e transparente dos interesses da indústria, por meio de discussão frontal dos temas em grupos de trabalho organizados e abertos, onde todos os membros tenham a sua voz. Os temas discutidos, conclusões, consensos e divergências apuradas nos grupos de trabalho devem ser apresentados em documentos estratégicos, disponibilizados publicamente e atualizados anualmente. Estes documentos devem ter como destinatários os decisores políticos e o sector da mobilidade eléctrica em geral. Estes documentos devem ser a base da voz da APVE para todos os temas.

    Jorge Vasconcelos

    Presidente Conselho de Administração APVE